Samado Bispo dos Santos foi um dos quatro Pataxó Hã-Hã-Hãi que foram a Brasília em 1984 falar com o Ministro Moreira Alves, do STF, sobre seus territórios distribuídos aos posseiros pelo governo da Bahia.

Eram Nailton, Dario, João, Samado, deputado Juruna e Nelson Marabuto, presidente da FUNAI. O objetivo era demonstrar ao ministro do Supremo a ilegalidade da distribuição de 3600 alqueires da terra indígena do Posto Caramuru-Paraguassu, no sul da Bahia. Segundo declaração do cacique Samado ao Correio Brasiliense (21/03/1982), os documentos do governo estavam incorretos, pois a área deles era quatro vezes maior que a reserva.

Os Pataxó entraram numa área ocupada por Jenner Pereira da Rocha, muito conhecido por grilagem de terras. O governo, a polícia federal e a justiça se apressaram em defender o fazendeiro e expulsaram os índios no município de Pau Brasil e Itaju do Colônia. O governador baiano, Antonio Carlos Magalhães, negou qualquer pressão sobre a FUNAI. O órgão indigenista emitiu nota dizendo que os títulos emitidos pelo governo estadual foram fraudados.

O ocupação das terras pataxó começou com a desestruturação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), a partir de 1940. Os coronéis da região e até o chefe de posto começaram a ocupar e arrendar a maior parte dos 36 mil hectares do Posto Indígena Caramuru da 11ª Delegacia Regional do SPI.

Como a violência e assassinatos de índios aumentaram na década de 50, muitas famílias fugiram para o Paraná, onde trabalharam como peões da nova frente de expansão agrícola cafeeira. A família de Samado foi uma das que ficou. Sua família foi surpreendida por policiais em sua casa, a mando de Jenner Pereira, para forçá-los a abandonar o local. Os policiais furaram de bala uma árvore e o cacique com seus filhos pequenos resolveu empregar-se numa fazenda da região. Sem nenhuma perspectiva e apoio, resolveu retornar dois anos depois.

O fazendeiro agiu rapidamente. Denunciou Samado à funai que o prendeu e enviou ao presídio Krenak, em Minas Gerais, distante mais de 700 km de onde viviam. O capitão da PM Manoel Pinheiro, ligado ao SPI, havia criado uma colônia militar penal agrícola para onde eram enviados os índios considerados “rebeldes”. Esta era a política da ditadura para os índios. Milton Titiá e Maria Mimiki também foram castigados e desapareceram. Após um tempo, Samado e seu filho foram autorizados a voltar para Paraguassu-Caramuru.

A volta deles e de outros Pataxó Hã-hã-hãi às terras na Bahia, onde agora estava a fazenda São Lucas, ocorreu após sua saída da fazenda Guarani, novo nome do presídio Krenak. Mais de trinta anos havia se passado desde a expulsão. O lema deste grupo era: “posso até servir de adubo, mas desta terra não saio não.”

A Reserva Caramuru Paraguassu constituiu-se como o resultado de muitas remoções mais antigas. O tronco de Samado foi um deles. Seus parentes eram originários dos índios Kariri-Sapuyá, de Pedra Branca, expulsos do antigo Aldeamento Nossa Senhora de Nazareth. As famílias dispersas fundaram novas aldeias mais para o sul da Bahia e os antepassados de Samado fundaram a aldeia Santa Rosa.

A Reserva Indígena Caramuru Paraguassu foi criada em 1926, mas sua medição e demarcação ocorreu apenas em 1936 e 1937. Samado participou destes trabalhos e relatou que a área era de mata muito fechada, sem trilhas e com muita onça. Kurt Nimuendaju esteve na região em 1938 e constatou que o abandono da área pelo Estado estimulava as invasões.

 

REFERÊNCIAS E FONTES:

PREZIA, Bendito. História da Resistência Indígena. São Paulo: Expressão Popular, 2017.

PENNA, Hermano. Samado. Fotografia.

Projeto Os Brasis e suas Memórias.

Tags: pataxó-hã-hãi, samado

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