Lugares sagrados não são parques de diversão e precisam ser honrados. Muitos destes locais são usurpados e dessacralizados por gente sem consideração alguma pelas referências culturais, espirituais e econômicas de outros povos.

Um destes lugares sagrados chama-se Havasupai e fica no Grand Canyon, Estados Unidos, sendo chamado de lar por gerações de indígenas. Lá existe uma cachoeira chamada de Cataratas de Beaver. A paisagem é quase sobrenatural, a água turquesa cai sobre terraços escavados em paredes vermelhas do deserto. Para chegar legalmente às cataratas, é preciso pagar USD 140,00, caminhar dez milhas até a área de camping da tribo e caminhar mais seis quilômetros até a cachoeira. As licenças para acampamentos e caminhadas são uma das poucas fontes de receita da tribo e ajudam a garantir que a região das Cataratas de Beaver permaneça protegida.

No entanto, algumas trilhas contornam o sistema de permissão para não pagar os Havasupai, que responderam deixando um guarda florestal na trilha porque sua terra integra o Serviço Nacional de Parques para cobrar a entrada ou mandar os espertinhos de volta às suas canoas.

O povo Havasupai vive na região do Grand Canyon há mais de 800 anos. Seu nome significa Povo (pai) da Água Azul-Esverdeada (Havasu). O usufruto da região das cataratas tem sido questionado em um documento obscuro que questiona os limites do parque simplesmente para liberar o acesso à cachoeira.

No Mato Grosso do Sul, um destes lugares sagrados é um morro que recebe o nome de Cerro Marangatu, na região do rio Estrela, município de Antonio João, Mato Grosso do Sul. Segundo o ancião Ava Poty Miri, nascido em 1936, a área foi transformada em fazenda e os moradores expulsos. Os nativos desta localidade, pela sua localização e história, descendem de um grupo cuja consciência unitária gravita em torno do Itatingua, habitante do Itatim, região compreendida nos séculos XVI e XVII entre os rios Paraguai, Mbotetey (Miranda atual), Pira’i/Aquidaban e as terras da cidade espanhola de Xerez. A consciência unitária dos grupos guarani desta localidade conectava os guarani aos mbaya sempre manifestando consciência de pertença ao um território grande.

Os moradores desta localidade enfrentaram encomendeiros espanhóis no século XVI, missionários e bandeirantes no século XVII, fazendeiros de Minas Gerais no século XX e, finalmente, para pacificá-los, o Estado brasileiro exerceu a tutela militar. Muitos moradores pagaram com a própria vida o preço para permanecer na região, entre eles, citamos Marçal de Souza (1983) e Simeão Vilhalva (2015). Segundo o cacique Loretito, quanto os brancos chegaram à região, o governo do estado de Mato Grosso se apressou em entregar a propriedade das terras para eles, sem ao menos se perguntarem se as terras eram devolutas ou eram habitadas por indígenas.

A melhor maneira de proteger estes lugares sagrados, diz Yellowhorse, do povo Havasupai, é apoiar a autonomia indígena para preservar estas áreas ameaçadas no Grand Canyon e em muitos outros locais.

No Monumento Nacional da Torre do Diabo em Wyoming, sagrado para o povo Lakota, e chamada por eles de Lar do Urso, sofre com o número crescente de alpinistas que ignoram a proibição de escalada em vigor há mais de 20 anos e impede as tribos locais de realizar suas cerimônias religiosas.

A lista dos sítios sagrados indígenas ameaçados pela cobiça não perdoou nem a localidade da origem da criação do mundo, segundo o povo Pãi Tavyterã, chamado de Jasuka Venda ou Cerro Guasu, na Cordilheira de Amambai, Paraguai. O sítio fica próximo ao Cerro Marangatu, sendo chamado também de Yvy Pyte, o coração da terra. A região vem sendo sistematicamente ocupada por madeireiros e grandes criadores gado que profanam os locais sagrados para o povo Pãi Tavyterã e impedem seu livre acesso.

 

REFERÊNCIAS E FONTES:

Oliveira, J. E., Pereira, L. M. Ñande Ru Marangatu. Dourados, MS: UFGD, 2009.

Almeida, R. F. T. de. Relatório de Estudo Antropológico de Identificação. Rio de Janeiro: 2000.

 

IMAGENS:

Lar do Urso, Estados Unidos: local sagrado para o povo Cheyenne e Lakota.

Cerro Marangatu, Brasil: morada de seres míticos para o povo Kaiowá.

Yvy Pyte, Paraguai: Princípio da Criação do mundo para o povo Pãi Tavyterã.

Uluru, Austrália: Centro de Universo e Casa da Mãe Terra para o povo Anangu.

Tags: Marangatu, Nhanderu

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