Por Neimar Machado de Sousa (FAIND/UFGD)

No interior do Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, o rádio ainda é o principal e mais eficiente meio de comunicação. Observei isto em lugarejos que assistiram a guerra do Paraguai, como Morraria, Dama Kuê e Arroyo Kora. A cultura destas localidades não é letrada, permanece na fala e no encontro. Ao percorrer as estradas de Ponta Porã, Amambai, Aral Moreira, Tacuru, Paranhos, e outros municípios, e possível driblar a solidão ouvindo alegres polcas paraguaias, chamamés, e anúncios comerciais paraguaios, cujo contato telefônico é de operadora brasileira. O multiculturalismo digital e a fronteira porosa são realidades por aqui. No comércio brasileiro, é comum ser atendido por funcionários que falam guarani e comprar créditos para celular pré-pago de operadora tigo para usar em municípios paraguaios como Ypehun, Las Palomas e Puente Kyha.

Apesar da linha fronteiriça que une e separa na horizontalidade, os preconceitos estão verticalmente enraizados em fórmulas como "parafuso paraguaio é arame", "você é paraguaio, mas não me engana", correntes na região.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, tal como ocorreu no passado na Guerra Guaranítica (1750-1756), quando as coroas portuguesa e espanhola, arqui-inimigas, uniram-se contra os Guarani na partilha do território e gado das estâncias jesuítico-guarani, os hermanos da fronteira esquecem todas diferenças quando o assunto são os índios.

Guarani é sinônimo de estorvo em ambos os lados da linha internacional. Do lado de lá, no campo, atrapalham madeireiros que desejam cerrar as árvores sagradas de xiru em yvy pyte, cerca de 70 km da cidade de Ponta Porã. Do lado de cá, atrapalham a produção de gado, soja e cana, de produtores que araram cemitérios, pois afirmam que os índios querem terras "para deixar o mato crescer".

O tema que gostaria de tratar, porém, é outro, menos polêmico e mais metafísico, trata-se do cheiro de fumaça.

Há poucos dias trafegava pela rodovia que cruza a reserva indígena de Dourados, MS, a maior concentração demográfica indígena do país. Mais de 16 mil índios, a maioria removidos para lá, oprimidos em menos de 4 mil hectares, reservados pelo estado brasileiro em 1917, para protegê-los, até que deixassem de ser índios, pensamento da época. 

O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de fumaça entre as aldeias Jaguapiru e Bororo. Apesar das árvores mais valiosas terem sido todas serradas há mais de 35 anos por empresários amigos, aliados a agentes públicos, para promover o desenvolvimento da aldeia, até hoje nunca visto, os Guarani e kaiowá continuam acendendo diariamente pequenos fogos, domésticos, como relatou o professor francês de história Fustel de Coulanges (1830-1889) no livro A Cidade Antiga, ao falar do costume religioso dos indo europeus, há mais de 5 mil anos.

O fogo é sagrado porque aquece na noite gelada. Sagrado porque permite aos parentes reunirem se, nhemboaty, e conversar, enquanto tomam mate. Momento em que os velhos atualizam as histórias do devorador Ava Porou, do saci Jasyjatere, do homem-onça Jaguarete ava, explicando aos mais jovens as mensagens que ouviram durante o dia dos intermediários, os passarinhos, como, por exemplo, o Guiri. O fogo também proporciona outras experiências místicas: afasta insetos a noite e de dia, pois o cheiro da fumaça continua nas roupas, cabelo e pele no dia seguinte. Enfim, ele torna a vida em áreas precárias, como as reservas e acampamentos mais confortável.

Outro elemento visual mítico da fumaça é a semelhança com a névoa, de onde saiam os seres transformados pelo kuarahy, filho do sol, durante sua odisseia em busca do pai, paikuara, o sol. A fumaça prova, neste contexto cultural, que a natureza se renova, algo semelhante ao arco-íris da narrativa hebraica.

Ainda assim, o cheiro da fumaça é motivo para discriminar os jovens indígenas, taxando os "fedidos", quando frequentam as escolas não-indígenas, classificando sua diferença geográfica e étnica como inferioridade, empurrando-os para o corte da cana nos canaviais.

Não obstante, essa sociedade continua cheirando a fumaça, num ensaio de resistência e valorização da tradição. A lição disso tudo é que uma sociedade que não consegue sentir o odor da diferença cultural tem algo que cheira mal.

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