Nada é menos objetivo que os fatos reais, dizia o professor de sociologia da comunicação. Esta frase pode ser testada quando o assunto é a cobertura da temática indígena pela mídia impressa.

A jornalista e pesquisadora Nataly Foscaches realizou extensa pesquisa sobre as notícias publicadas na imprensa sul-matogrossense sobre os povos indígenas, identificando alguma características de jornalismo parcial e baseada unicamente em fontes oficiais num misto de imprensa marrom com chapa branca. A jornalista atribui estas falhas ao processo de edição e não necessariamente do jornalista num contexto de organização capitalista das empresas de comunicação e divisão do trabalho.

A mesma pesquisadora ao reafirmar que a comunicação é um direito da sociedade, considera que as empresas de comunicação atuam dentro de uma ambiguidade conflituosa de informar e atender às leis de mercado. Vivemos dentro da indústria cultural e o jornal é um produto informativo, mas também alienante.

Um exemplo mencionado na pesquisa e que ganhou repercussão nacional foi o caso da desnutrição infantil indígena no ano de 2005. A cobertura do assunto foi superficial e sensacionalista com muitas fotos de crianças indígenas magérrimas e funerais cuja consequência foi a criação da CPI da desnutrição e consequente disputa entre governo e oposição sempre deturpando a visão da sociedade em relação aos povos indígenas, reforçando preconceitos até chegar ao esgotamento da pauta e esquecimento do assunto que nunca chegou a ser totalmente resolvido, pois as crianças foram esquecidas no meio das disputas entre políticos.

Mais recentemente, uma matéria na imprensa internacional tem repercutido bastante o tema dos povos indígenas na imprensa britânica e se alastrado rapidamente nas mídias sociais pela beleza das imagens reproduzidas. As imagens são registros históricos informativos pelo que mostram e pelo que escondem do mesmo que as matérias de jornal. Trata-se de matéria no jornal Daily Mail sobre fotos históricas de índios americanos, disponíveis em acervos de museus, e que foram colorizadas. Todas as imagens foram registradas antes de 1899 e registram chefes tribais, guerreiros em repouso, famílias indígenas, crianças e xamãs indígenas com sua vestimenta ritual.

Umas das imagens recuperadas e colorizadas registra um chefe da tribo Ojibwa, um dos maiores grupos nativos da América do Norte. Fazedor de Flechas, guerreiro, foi fotografado por volta de 1903 quando sua tribo se estabelecia na Dakota do Norte, Minnesota, Wisconsin, Michigan e Ontário. Eram caçadores, pescadores, que negociavam peles com os franceses. São falantes de uma língua da família algonquina, amplamente difundida no Canadá.

A próxima imagem é o registro de três índios Jicarilla Apache, sendo James A. Garfield ao centro, Pouche Te Foya e Sanches, todos com cocares de penas. A imagem foi registrada por volta de 1900. As terras tradicionais dos Jicarilla também incluem parte de Oklahoma. Este grupo foi expulso em 1716 e se estabeleu onde hoje é o Novo México. Existem atualmente cerca de 2.800 membros do opvo Jicarilla Apache, a maioria dos quais vive na cidade de Dulce. O nome 'Jicarilla' vem de uma pequeno cesto selado usado como copo.

Ambas as fotos posadas não mostram a trajetória de guerras e remoções para as reservas sob tutela militar destes povos. Do mesmo modo, o que as matérias dos maiores jornais de Mato Grosso do Sul não mostram é a mão invisível dos coronéis nos seus editoriais. Estes ainda dão as cartas no jornalismo, a ponta visível da sua política autoritária e violenta na imposição de suas ideias partidárias. Não é pra menos que as novas gerações indígenas da geração Z são tão conectadas nas redes sociais e mídias alternativas para se informar e divertir longe da tutela informacional.

REFERÊNCIAS E FONTES:

FOSCACHES, N. G. Guyraroká, Panambizinho e Te’Yikue: Uma experiência com cinema e novas mídias. Revista Aceno, Vol. 02, n 03, 2015.

IMAGENS:

ENOCH. Colorized photographs show Native Americans. Reino Unido: Daily Mail, 2019.

Tags: Mídia, Índio

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