Não faz uma década que os índios urbanos chamam a atenção de estudiosos. O pioneiro foi Roberto Cardoso de Oliveira, que estudou o povo Terena na cidade de Campo Grande (MS) e Aquidauana (MS).

No imaginário nacional, há uma associação entre índios e floresta/natureza, por um lado, e não-índios e cidade/civilização. Nessa lógica, o especialista em simplificação acusa estes indígenas de desagregados sem cultura, tornar-se igual a outro e, em consequência, destituído de seu ser, desvelando o cercamento de sua cognição ideologizada.

A população indígena urbana brasileira sofre uma dupla discriminação. Não são bem aceitos nas cidades, pois afirmam que seu lugar é nas aldeias e tampouco são aceitos nas aldeias, sob a alegação de que não índios plenos porque vivem nas cidades. São como apátridas.

Há que se fazer um esforço de pensar a cidade como um lugar análogo a outros como as aldeias nos quais os indígenas se relacionam com os diferentes seres que os habitam. A identidade indígena não é estática, essencial e atemporal, mas é tão persistente quanto o chefe Touro Sentado que não precisou deixar de ser índio, cacique e xamã para atuar nos shows do oeste selvagem de Bufallo Bill. Assim, seja tomando cerveja de mandioca ou cerveja industrializada, comendo frango ou caititu, pintando o corpo ou usando “roupas de branco”, estamos falando de populações cuja forma de pensar é muito distinta da nossa.

Não podemos supor que os índios passem a pensar com o nosso próprio esquema cognitivo-categorial apenas por que se apropriam de nossas coisas da mesma forma como João Ramalho não deixou de ser português por viver no Brasil e entre os Tupinambá.

Os povos indígenas desenvolveram ao longo dos séculos a capacidade de incorporar capacidades de outros seres, sejam humanos, animais, vegetais e espirituais, assim comos nós, não índios. Por que seria diferente com índios na cidade? Atualmente, segundo o IBGE, 36% dos índios brasileiros vivem nas cidades, mas nem por isso deixam de ser originários do fundo do rio, segundo o cacique karajá Raul Hawààti.

Falas de índio urbano diz a respeito dos não-índios, do que sobre eles, pois o debate expressa as nossas expectativas e ideias sobre a incorporação dos índios aos Estados nacionais. É uma batalha discursiva e política sobre a alteridade e a semelhança entre as tendências românticas, missionárias, dos defensores dos direitos humanos e daqueles que agem destruindo o direito destas populações.

Diante do que não se entende bem, a recomendação socrática é admitir humildemente a própria ignorância e estudar. Uma das opções para se inteirar deste assunto é o projeto índios na cidade, coordenado pelo Marcos Júlio Aguiar. É ele quem esclarece que somente no ABC paulista vivem mais de dois mil e quinhentos índios de várias etnias. A professora Chirley Maria, da etnia Pankará, é uma entre eles e que foi eleita deputada estadual para um mandato coletivo, uma grande chance para romper a invisibilidade social.

 

REFERÊNCIAS E FONTES:

AGUIAR, M. J. A. Projeto índios na cidade. São Paulo, 2018.

NUNES, E. Aldeias Urbanas ou Cidades Indígenas? Espaço Ameríndio: Porto Alegre, 2010.

 

Metadados:

verbete wikipedia.

Tags: urbanos, índios

Exibições: 7

Responder esta

© 2025   Criado por neimar machado de sousa.   Ativado por

Relatar um incidente  |  Termos de serviço