Por Neimar Machado de Sousa* Durante esta semana, acompanho como convidado uma delegação de acadêmicos, professores indígenas, caciques e mestres tradicionais numa viagem a Brasília. Vieram a capital para cumprir uma reunião com a secadi/mec e para preparar o I Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena, que será realizado em Brasília.
A amabilidade com que os indígenas foram recebidos no Ministério da Educação deixou os professores animados e confiantes. A primeira conclusão foi que os relatos do deputado xavante Mario Juruna, informando que os poderes legislativo, executivo e judiciário temem os indios, por considerarem-nos violentos não tinham fundamento. Assim concluíram os Kaiowá, Guarani, Terena e Kaigang presentes.
No segundo dia de atividades, os indígenas, animados, resolveram pedir para encontrar os ministros para explicar-lhes que o marco temporal do julgamento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e a portaria 303 da AGU condenam à morte seus parentes nas aldeias.
A resposta do Estado à demanda por direitos foi exemplar pela rapidez. O primeiro ministro que manifestou presença foi o da defesa. Em poucos segundos os indígenas estavam cercados pelas viaturas da polícia federal, rodoviária, polícia de trânsito e outros homens de preto que apareceram do nada de dentro do palácio do planalto. Desde o 11 de setembro não viam tamanha mobilização em segurança.
Outro ministro que rapidamente deu as caras foi o das relações exteriores. Apareceu sob a forma de pastor alemão, acompanhando a tropa de choque do exército.
Pelo menos o responsável pelas relações institucionais dialogou com as lideranças indígenas, porém estava disfarçado com uniforme de aspirante a oficial e negociador. Suas credenciais para dialogar eram três armas e um óculos escuro.
Apavorados com o mau tratamento do poder executivo, os índios buscaram refúgio na casa do povo, o congresso, onde interrogaram um parlamentar sobre seus direitos constitucionais. Enquanto conversavam, verificaram que a constituição estava ali na prateleira do gabinete, quase sem uso. Um assessor informou que a ultima vez que havia sido tocado foi em 5 de outubro de 1988.
Depois deste contato entre o Estado e os velhos xamãs, sr. Tito, Jorge, além dos professores, perguntei aos índios se eles haviam visto por ali o ministro da justiça. Já tinham a resposta na ponta da língua: "não o vemos há mais de 500 anos!"
* Neimar Machado de Sousa é doutor em educação e professor de geo-história colonial na Faculdade Intercultural Indígena, da UFGD. E-mail: neimarsousa@ufgd.edu.br