O milho é um alimento tradicional americano conhecido e cultivado em muitas partes do mundo. Sua história é análoga à dos índios americanos, pois os acompanha há pelo menos dez mil anos.

Durante a conquista da América, foi comercializado na Europa sob o disfarce de grão turco para que os consumidores cristãos aceitassem consumi-lo sem medo da condenação ao inferno. Consideravam que alimento indígena não era digno das mesas europeias.

Uma de suas variedades, o milho branco, é sagrada para os guarani e não deve ser consumida antes de ser batizada numa cerimônia que chega a durar até quinze dias, o jerosy puku, canto longo para os kaiowá, e avati nhemongaray, para os guarani nhandeva. De acordo com os anciãos kaiowá e guarani, o milho e todos os alimentos foram criados pela divindade chamada Jakairá. A ele deve-se a boa produção do milho saboró e demais produtos agrícolas como a mandioca, a batata-doce e a banana.

O canto-dança ritual tem a finalidade de purificar os produtos agrícolas das impurezas, trazendo equilíbrio para as relações sociais. O ritual é cantado e dançado em círculo, no sentido anti-horário, durante o qual são destacadas as características e os elementos corporais de itymbýry, a planta que nasceu a partir do Xiru, princípio de tudo. Os movimentos simbolizam a caminhada, oguatá, até os patamares celestiais, reko araguyje, praticada pela primeira vez pelos antepassados, o sol e a lua.

A origem milho sagrado, também chamado de saboró, é uma parte da vestimenta usada na cintura do jakaira, o ku’akuaha, do qual uma pequena parte se transformou, de maneira mágica, na semente do milho branco que, através da reza, germina e cresce. Deste milho também se faz a chicha, o caldo do corpo de Jakairá, bebida ritual consumida nas festas.

No local onde jakaira escolheu para fazer sua roça, não foi necessária força física nem produtos químicos, pois o trabalho foi efetuado pela prática da espiritualidade. Assim como jakairá, responsável pela reprodução de todos os seres vivos, os homens precisam cultivar o milho branco seguindo as mesmas regras para ter boa colheita: deve-se cantar para plantar, para ser protegido das pragas e, por último, na colheita, benzido ainda verde (avati kyry), para que possa ser consumido sem riscos para a saúde. Depois da colheita, o milho precisa ser abençoado antes de ser distribuído. O milho branco recebe o nome em Avati Jakairá.

De acordo com o mito kaiowá da criação, a primeira roça foi plantada por Jakaira. No dia seguinte, ele avisou Pa’i Tambeju que podia ir colher o milho. Este ordenou à sua filha que fosse buscar o milho, mas esta questionou, dizendo que não poderia estar maduro, uma vez que havia sido plantado no dia anterior. Jakaira voltou para dizer ao Pa’i Tambeju que a roça estava pronta e este avisou sua mulher para que fosse colher o produto, mas, quando lá chegou, percebeu que o milho não estava maduro. Conforme a explicação do xamã, isso foi um castigo do Jakaira, pela desobediência e é por isso que o milho demora cinco meses para ficar pronto para a colheita.

Jakairá é o guardião, jára, das plantas que fornecem alimentos ao agricultor. A ele também são feitas rezas para agradecer pelas frutas silvestres, porque essas plantas não foram criadas somente para o ser humano, mas para o consumo de outros animais que ali vivem, lembram os professores indígenas.

Conforme o calendário tradicional, estamos no período Avati Ranga Áry. O milho sagrado já se encontra pronto para ser colhido. Seu batismo, nhemongarai, já começou a ser realizado nas aldeias guarani. A próxima cerimônia está agendada para o dia 22 de fevereiro na Ongusu Guyra Ñe’engatu Amba, tekoha Jaguapiru, do Nhanderu Getulio Juca e Nhandesy Alda Silva.

Que Jakairá olhe nossa mesa apesar dos mercadores de agrotóxicos, Tova Nhary, que visitam as aldeias e incentivam os índios a plantar soja. Uma alimentação ruim produz, além de desequilíbrio biológico, impacto ambiental e turbulência social.

 

REFERÊNCIAS E FONTES:

JOÃO, Izaque. JAKAIRA REKO NHEYPYRŨ MARANGATU MBORAHÉI. UFGD, 2011.

LESCANO, Claudemiro. TAVYTERÃ REKO ROKYTA. UCDB, 2016.

 

IMAGENS: Pires, Udo. Avati Ñemongarai. Paranhos-MS: EMI Gil Pires, 2018.

Tags: avati, jakaira

Exibições: 270

Responder esta

© 2025   Criado por neimar machado de sousa.   Ativado por

Relatar um incidente  |  Termos de serviço