A colonização da América foi justificada pelo cristianismo. Esta religião tem uma relação íntima com o livro e a palavra. A palavra deve pregada e aceita, pois é inspirada e profetizada.

Os conquistadores europeus, preocupados em justificar a conquista da América, afirmaram que os índios não tinham nem lei, nem rei, nem fé. Assim, seriam inferiores aos europeus e deveriam pagar a instrução com a liberdade. Os Guarani, um dos cinco maiores grupos étnicos brasileiros, praticam uma religião cujo fundamento é a Palavra. Rituais e orações são fundamentais, pois quem reza se faz palavra. Sua religiosidade é praticada sem grandes templos e imagens.

León Cadogan e Kurt Nimuendaju ouviram e registraram muitos relatos e mitos dos guarani que sempre começam pela expressão araka’e, no princípio, naqueles tempos. Os missionários dedicaram-se desde a colônia a afastar os índios de suas tradições com catequese e escola. Era comum separar a crianças das aldeias, levando-as para colégios internos e devolvendo-as adultas para catequizar sua aldeia. Estes meninos eram chamados de angelitos.

Antônio Ruiz de Montoya, em 1639, registrou referência muito antiga entre os índios de um espírito, chamado de Kurupi. Este mito preocupava muito os missionários, pois sua representação era erotizada com um grande falo que rodeava várias vezes a cintura. Convertidos ao cristianismo, os Guarani esqueceram, ou pelo menos não contavam mais abertamente seus relatos e cantos tradicionais.

O sol é um personagem fundamental na religião de muitas culturas indígenas na América. Entre os Incas, a festa principal era a festa do sol, Inti Raymi, no solstício de inverno.

A narrativa guarani do Mito dos Gêmeos conta que Nhande Ru Vusu, nosso grande pai, foi o primeiro que se fez visível das grandes trevas originárias, trazendo em seu peito uma luz como o sol. Foi ele quem firmou a terra. Outro ser mítico, Mba’ekuaa, conhecedor de todas as coisas, junto com Nhande Ru Vusu, uniram-se com a Nossa Mãe, que engravidou de gêmeos. Depois disso, Nhande Ru Vusu abandonou a terra para voltar apenas no final do tempo.

A mãe grávida começou uma caminhada em busca do marido, mas no caminho chegou à casa das onças. Escondida pela onça mais velha num grande pote, foi descoberta e devorada pelas demais. Os gêmeos, kuarahy e Jasy, respectivamente o sol e a lua, sobreviveram e foram criados na aldeia dos felinos, seus tios.

Saíram para caminhar e tentaram ressuscitar sua mãe a partir dos ossos, mas a morte já havia se instalado nesta terra. Em suas caminhadas deram nome às frutas e roubaram o fogo dos corvos, passando a cozinhar os alimentos. Encontraram outros homens, inicialmente inimigos, mas que se tornaram aliados mediante o casamento com suas filhas e irmãs. Estes cunhados maus eram chamados de Añáy, interpretados posteriormente pela exegese cristã como demônios.

Ao fim da sua caminhada terrestre, ascenderam ao patamar onde estava o Pai celeste. Conseguiram o feito praticando os cantos e as rezas acompanhados dos instrumentos sagrados, como o Mbaraká e o Mimby. A terra porém, que no princípio foi erguida das trevas, continua ameaçada por elas, simbolizada pelos eclipses e monstros míticos como o Mbopi Karu e o Jaguarete. A interpretação teológica Guarani é epistemologicamente sofisticada quando analisada analogamente aos desastres ambientais emersos das trevas políticas para permitir o abuso de agrotóxicos, a mineração sem controle, o desmatamento, a privatização da água e invasão das terras sagradas. Kuarahy nos proteja!

 

REFERÊNCIAS E FONTES:

MELIÀ, Bartomeu. Guarani rape. Asunción: CEPAG, 2017.

 

IMAGENS: Deuses incas (AYALA, 1595); Rezadores e professores Kaiowá de Te’ýikue (SOUSA, 2012).

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