Os índios cavaleiros que enfrentaram os espanhóis e portugueses na defesa do Chaco, semeando medo e admiração, foram chamados de Guaikuru pelos seus adversários.
No Paraguai, as formigas negras que invadem as casas em determinadas épocas do ano, ocupando tudo, são chamadas de guaicurus. Esta sociedade estratificada entre nobres, guerreiros e servos, defendeu o seu território com suas longas lanças e cavalos. O cavalo, tomado aos espanhóis, passou a ser importante parceiro na mobilidade e na guerra, num movimento semelhante aos Apache, na América do Norte.
Estes cavaleiros eram mestres nas emboscadas, usando assovios como sinais de ataque, nunca o faziam sozinhos, mas convidavam guerreiros de outras aldeias para que as incursões fossem mais destruidoras. Atuaram intensamente contra os portugueses quando descobriram ouro em Cuiabá. Em 1725, realizaram grande ataque contra a expedição de Diogo de Souza que fazia a rota das monções até as minas pelo caminho de Camapuã. O encontro entre os bandeirantes e os Guaikuru no rio Cuiabá foi violento com apenas dois sobreviventes entre os portugueses.
A ordem social e a mitológica estão interligadas entre os Guaikuru. Um de seus mitos narra que Nitikana abandonou a sociedade e foi para um lugar mágico, onde gerou um filho com a onça. Será esse menino-bicho, parcial em sua humanidade, quem vai servir de modelo ao comportamento Kadiwéu, grupo remanescente dos antigos mbaya-guaikuru na região de Bodoquena, Mato Grosso do Sul.
Esse menino, Niwelanigi, ao ser chamado de bicho pela pomba, se envergonhou. Era poderoso, mas não desejava esta condição, pois a onça comia carne crua de homens e animais. Para retornar à sociedade humana, a pomba limpa seus os olhos e ouvidos para conseguir ver e ouvir o outro mundo. O menino, já crescido, transformou-se em um guerreiro feroz e poderoso que raptava outros povos, pois deles vinha sua fonte de vida. A proximidade destes guerreiros com a onça implicava em algumas condições: proibição de comer carne de catitu crua, do mel às meninas em menarca, corte de cabelo durante o luto, entre outras.
O termo guaikuru (sul) refere-se a uma família linguística que inclui vários povos como os Mbayá (norte) e seus remanescentes atuais, os Kadiwéu. Sua auto-denominação era "Eyiguayeguis", "gente que vive entre as palmeiras do tipo 'eyiguá'. Segundo o explorador e engenheiro militar espanhol Félix de Azara (1742-1821), os mbayás acreditam ser a nação mais nobre do mundo, a mais generosa, a mais rigorosa no cumprimento de suas promessas e a mais valente. Devido à sua beleza, elegância e vigor, consideram-se muito superiores aos espanhóis e aos europeus em geral. (Azara, 1969, p. 220-21).
O mesmo cronista registrou uma explicação para o seu modo de vida: Deus criou no princípio as nações tão numerosas como são hoje e as distribuiu pela terra. Depois, pensou um criar um Mbayá e sua mulher, mas como já havia distribuído todas as terras aos outros povos e nada mais restava, enviou um recado pelo Carcará, dizendo que estava muito sentido por não ter nenhum terreno para lhes dar, mas que, em contrapartida, permitiria que andassem pelos territórios dos outros levando-lhes a guerra, matando seus guerreiros, raptando suas mulheres e adotando suas crianças para aumentar a população. (Azara, 1969, p. 220-21).
REFERÊNCIAS E FONTES:
AZARA, Felix de. Viajes por la América Meridional. Madrid: Espasa-Calpe, 1969.
NIMUENDAJU, Curt. Mapa Etno-Histórico. Rio de Janeiro: IBGE, 1987.
VINHA, Marina. Corpo-Sujeito Kadiwéu. Campinas: Unicamp, 2004.
HERBERTS, Ana Lucia. Os Mbayá-Guaicurú. São Leopoldo: Unisinos, 1998.
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