Neimar Machado de Sousa*

A primeira vez que o encontrei, estava nascendo. Era uma criança que encontrei no NEPPI, tekohá do prof. Antonio Brand, onde ele era com sua parentela. Estava na Universidade Católica Dom Bosco, UCDB, em Campo Grande, MS. O nome escolhido para o garotinho foi Fida. O nome do meio era Discussão e o último nome era Audiovisual Indígena. Seu padrinho era o cineasta quéchua, Ivan Molina, professor Escola de Cinema e Artes Audiovisuais de La Paz, Bolívia. Seus irmãos mais velhos são índios também: Eliel Benites, da etnia kaiowá, e Gilmar Galache, da etnia terena. A família é multiétnica, pois a profa. Renata Oliveira Costa aceitou o convite para ser a madrinha. A vida do Fida não haveria de ser diferente daquela de seus parentes indígenas. A família é extensa, composta por muitos jovens, e espalhada por aldeias de vários estados. Nestes seis anos de vida, já andou pela Aldeia Panambizinho, Te’ýikue, Pirajuí e Porto Lindo.

A festa de aniversário, da sexta edição do Fida, foi no município de Japorã, MS, Aldeia Porto Lindo. Foi uma comemoração simples que durou três dias, de 4 a 6 de setembro. Para alegrar ainda mais os participantes a chicha de cana, kaguî, foi preparada pelos anciãos da aldeia que estiveram presentes durante todas as atividades.

Na festa dos seis anos do Fida encontrei alguns temas antigos dos povos indígenas. Pude assistir produções e ouvir roteiros sobre a erva-mate, o papel da mulher terena, a queimada, o poranga, o fogo, todos projetados em foto e som na tela do cinema na aldeia.

Durante os três dias, a discussão girou em torno do que seria cinema indígena e seu significado para os povos indígenas. Ouvi que uma boa casa se constrói lentamente, lembraram Eliel Benites e Ivan Molina. Insistiram que o cinema indígena é um pedacinho da realidade para refletir. Um dia em um minuto. Ouvi que não é encenação, é retrato. Disseram que é tudo verdade e que os jovens podem, com uma câmera na mão e uma boa ideia na cabeça, fortalecer a cultura, pois o cinema tem o potencial de mostrar a imagem e o som da aldeia.

Parabéns à família extensa do Fida. O Fórum de Inclusão Digital nas Aldeias, é um tekoharã, no sentido próprio da palavra. Ali a ocupação ocorre na tela do cinema e na cabeça de quem assiste e realiza. Neste fórum, o cinema indígena está ampliando seu espaço de circulação e quebrando o confinamento midiático das grandes corporações e empresas de comunicação.

Os créditos finais e agradecimentos, aguyjevete, devem ser dados aos amigos do Audiovisual indígena: a ASCURI, Associação dos Realizadores Indígenas, a comunidade de Porto Lindo, a Prefeitura de Japorã - MS, aos professores da Faculdade Intercultural Indígena, FAIND/UFGD, ao PNUD, à Funai, e a tantos outros cinéfilos.

Sobre o FIDA

De acordo com o prof. José Francisco Sarmento (UCDB), o Fórum de Inclusão Digital nas Aldeias, surgiu a partir de uma articulação entre acadêmicos e ex-acadêmicos que fazem ou fizeram parte do projeto do Rede de Saberes (Projeto de Permanência de  acadêmicos indígenas na universidade, financiado pela fundação Ford). A proposta do fórum nasceu da necessidade de discussões e reflexões sobre a utilização de novas mídias em comunidade indígenas.

Questões relacionadas à socialização da produção audiovisual das novas tecnologias e mídias, reflexões sobre a democratização e replicação dos saberes adquiridos, elaboração de projetos e a obtenção de financiamentos, refletindo sobre a construção de projetos que venham a se tornar autossustentáveis. Estas são algumas questões discutidas no FIDA, projeto que foi planejado para uma periodicidade anual.

O objetivo do Fórum é proporcionar um espaço de reflexão sobre o uso dos recursos audiovisuais e das novas mídias por parte das comunidades e aldeias indígenas de Mato Grosso do Sul, incluindo a discussão sobre projetos prioritários, recursos e uma política de socializar as produções indígenas.

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* Neimar Machado de Sousa é doutor em educação pela UFSCar e professor de geo-história colonial na Faculdade Intercultural Indígena - FAIND/UFGD, em Dourados - MS. Coordena o Serviço de Documentação e Informação sobre os Povos Indígenas. E-mail: neimarsousa@ufgd.edu.br

Tags: Fida, IV

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