Evo Morales, Aymara presidente da Bolívia, possibilita refletir sobre indianismo e indigenismo americano. Sua chegada ao governo significou a vitória de autonomia indígena?
Em princípio, os termos indianismo e indigenismo não são sinônimos e têm modificações de significado na História da América. Uma das significações possíveis em política para indigenismo considera-o como herdeiro da tradição paternalista das monarquias absolutistas e mais recentemente voltado à inclusão indígena subordinada na aliança contra as oligarquias dominantes. Indianismo seria o nome agregador para projetos elaborados pelos próprios índios com vistas a constituir-se como sujeitos políticos autônomos capazes de governar a si mesmos.
A vitória eleitoral do Movimiento al Socialismo (mas) na Bolívia em 2005 e a chegada de Evo Morales à presidência mobilizou expectativas nacionais e internacionais. O presidente eleito, antes da cerimônia de posse num santuário indígena, fez um giro pelo exterior. Internamente se cogitou a possibilidade de libertação e descolonização história dos índios na Bolívia, mas em 2008 o país se rebelou. Cinco dos nove departamentos revoltaram-se com discursos separatistas e racistas que emergiram do pântano da história. O governo também reprimiu movimentos indígenas em 2010 e construiu estradas no Território Indígena e Parque Nacional de Isiboro-Secure em 2011.
Mais recentemente, Evo Morales foi o único chefe de Estado identificado com a esquerda que esteve na cerimônia de posse e cumprimentou o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Morales chamou Bolsonaro de irmão pelo twitter e, ainda assim, foi qualificado de ditador pela imprensa marrom brasileira. Três dias após a posse, o deputado estadual do Rio de Janeiro, Rodrigo Amorim (PSL), apoiado pelo clã Bolsonaro, declarou que a “Aldeia Maracanã é lixo urbano e quem gosta de índio, deveria ir para a Bolívia, pois o país, além de comunista, é presidido por um índio'. Evo Morales reagiu dizendo que vai o ONU denunciar o Brasil por racismo de Estado.
O projeto excludente dos indígenas na Bolívia é herdeiro da colonização e foi consolidado com o nascimento legal do Estado em 1826, ano da primeira assembleia constituinte. A Bolívia tentou fazer com que a identidade indígena desaparecesse, mas relegou-a à clandestinidade e produziu duas nações: uma mestiça europeizada e outra kolla-autóctone, nas palavras do escrito indígena Fausto Reinaga (1970).
O país mestiço passou por vários ciclos econômicos: colonial, ruptura, liberal, nacionalista e neo-liberal. O país indígena produziu outros ciclos nascidos após as revoltas de Tupak Amaru e Tupak Katari (1780), fundação das primeiras organizações políticas indianistas (1930), passando pela Guerra da Água, O cerco indígena de La Paz (2000), o levante de El Alto (2003), a criação do MAS e a eleição de Evo Morales (2005).
Somente a leitura mais atenta torna compreensível a trajetória de Morales e dos movimentos de seu governo, pois de líder sindical cocalero, avesso e crítico ao discurso indianista, chegou ao poder adotando as teses indigenistas e novas vestimentas para sinalizar ao público sua autenticidade.
Assim fica claro que a Bolívia, assim como outras nações latino-americanas, apesar da independência formal ainda não alcançou a descolonização de si e, por isso, os índios continuam a se levantar das quatro partes (suyus) para recuperar o controle de seu antigo império, o Tahuantinsuyu.
REFERÊNCIAS E FONTES:
STUMPF, F. Brasil Vai Denunciar Brasil na ONU por “racismo de Estado”. Metrópolis, 2019.
LOPES, R. Há algo por trás da presença de Evo Morales na posse de Bolsonaro. Rádio Gaúcha, 2019.
IMAGEM: Sebastian Baryli (poder 360).
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