Foi desta forma que Yurikuyuvakae falou ao povo Terena ao retirá-los de dentro da terra e convocar um sapinho para alegrá-los com suas piruetas.
O povo terena compõe uma população dispersa pelos estados de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul composta por mais de 26 mil pessoas falantes de uma língua do tronco Aruak.
No Mato Grosso do Sul, um dos estados brasileiros que abriga uma das maiores populações indígenas do país, a presença terena se revela de forma bastante explícita, seja das mulheres no mercado municipal de Campo Grande, nas levas de trabalhadores no corte de cana-de-açúcar e nas escolas. Os Terena estão também na música, são advogados, vereadores, professores, militares, comerciantes, programadores de computador, designers, contrariando a visão de “aculturados” e “urbanizados” atribuída a eles pela parcela do estado brasileiro que serve a monocultura e seus representantes.
Estes estereótipos tem o objetivo de ocultar a resistência secular de um povo e promover o racismo da população brasileira contra os índios. Os Terena vivem em um território descontínuo, fragmentado em pequenas “ilhas” cercadas por fazendas e espalhadas por sete municípios sul-matogrossenses: Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque e Rochedo. Também há famílias terena vivendo em Porto Murtinho (na Terra Indígena Kadiweu), Dourados (TI Guarani) e no estado de São Paulo (TI Araribá).
São remanescentes da nação Guaná com características culturais que remetem a região do Chaco, lembrada na memória oral dos mais velhos como Eêxiva, entre a margem direita do Rio Paraguai e a morraria de Albuquerque, atual Corumbá. São agricultores de longa data e exerciam domínio econômico sobre populações de caçadores e coletores. Organizaram-se em bases sociais complexas e em aldeias populosas, sendo expansionistas e guerreiros. A sociedade é estratificada entre os Naati, chefes, e os Wahêrê-xané, guerreiros, promovendo alianças militares e econômicas com os grupos vizinhos mediante casamentos, especialmente com os Mbayá-Guaykuru.
O Sr. Felix, ancião da Aldeia Cachoeirinha contou que seus antepassados “tinham sido atacados por outros índios diferentes lá do Eêxiwa. Aí eles vieram de lá, atravessaram o rio Paraguai até Porto Esperança, atraz da morraria... Ficaram um pouco perto de Corumbá e depois fizeram aldeia aqui, em Miranda... Naquele tempo não tinha purutuyé [brancos, portugueses], só mesmo índio Terena, Laiana, Kiniquinao, Echoaladi, Caduveo.”
O contato com os Purutuye (brancos) se intensificou durante os conflitos que antecederam o tratado de limites com a Espanha. Hercules Florence comentou em 1820 sobre uma aldeia localizada um pouco acima de Miranda, dizendo que das “tribos do Rio Paraguai, esta é que tem mais contato com os brasileiros. Lavradores, cultivam o milho, o aipim e mandioca, a cana-de-açúcar, o algodão, o tabaco e outras plantas do país. Fabricantes, possuem alguns engenhos de moer cana e fazem grandes peças de pano de algodão com que se vestem, além de redes e cintas. Industriais, vão, em canoas suas ou nas dos brasileiros, até Cuiabá para venderem suas peças de roupa, cintas, suspensórios, cilhas”.
Recentemente, o povo Terena deu novas provas de sua resistência durante grande ato na praça Ary Coelho, em Campo Grande, MS, no denominado Janeiro vermelho, durante o qual denunciaram novamente as ações da política Purutuye de desmonte de seus direitos pela reforma ministerial do atual governo.
Fonte: História do Povo Terena. Sesai. Maria Elisa Ladeira. Gilberto Azanha.
Iconografia: Cristiane Machado da Silva, 2018.
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