A capital de Mato Grosso no Centro-Oeste brasileiro foi fundada em 1719 por Pascoal Moreira Cabral e descoberta por Miguel Sutil, ambos bandeirantes paulistas.
A história da colonização portuguesa de Cuiabá não pode ser dissociada da destruição da cidade espanhola de Santiago de Xerez e da escravização dos índios guarani-Itatim, atual Mato Grosso do Sul, nas fazendas paulistas.
Xerez foi fundada pelo mestiço Ruy Diaz de Guzmán, descendente de Irala e Álvar Nuñez Cabeza de Vaca. Oriundo de Villa Rica (Guairá), vinha pelo rio Iguatemi, serra de Amambaí em direção ao norte até Cuiabá. Os espanhóis fundaram uma nova província, Nova Andaluzia, que abrangia o território do Rio Paraná ao rio Cuiabá. A primeira Xerez foi fundada em 24 de março de 1593 perto do Rio Ivinhema, meia légua do porto de São Matias, no Rio Paraná, onde habitavam os índios Gualachos. A cidade resistiu aos ataques destes índios no local até 1599, transladando-se para as proximidades da atual cidade de Aquidauana. Os cronistas afirmaram que os índios na região da primeira fundação cultivavam o mel, plantavam arroz silvestre, colhiam frutos, legumes e cultivavam algodão.
O abandono da segunda Santigado de Xerez, nas margens do rio Miranda, antigo M’botetey, incomodou o governador do Paraguai, Juan Diaz de Andino, apenas em 1682. O governador procurou se informar quem eram os portugueses que ocupavam as ruínas da cidade como ponto de apoio e descobriu que eram Pascoal Moreira Cabral e André de Zuñega, a partir de onde fariam as incursões até o rio Cuiabá.
Em Xerez, os “maloqueros de San Pablo”, como eram conhecidos os bandeirantes, mantinham cerca de oitenta canoas, ponto de saída para o rio M’botetey (Miranda) e, deste para o rio Paraguai, caminho para o rio Cuiabá. A cidade de Nova Xerez foi destruída pelos bandeirantes em 1632, segundo o jesuíta Pedro Lozano, após os ataques constantes dos bandeirantes para escravizar os índios Ñuara, Garambaré, Cutaguá e Temiminós, conhecidos como Guarani-Itatim. A malocas foram denunciadas às autoridades de Assunção, Buenos Aires e ao superior da Companhia de Jesus. No entanto, curiosamente, nenhuma providência foi tomada pelas autoridades espanholas. Foi também o despovoamento do Itatim, posterior ao de Assunção, que permitiu o aumento no Itatim dos índios Mbayá-Guaicuru e Guaná.
Os moradores espanhóis de Xerez, habituados vendedores de índios aos bandeirantes desde os tempos de Villa Rica, acompanharam os bandeirantes às cidades de Sorocaba e Santana de Parnaíba. Estas cidades eram, como Xerez, entrepostos entre São Paulo e a região do Mato Grosso e Paraná, destino regular dos bandeirantes orientados pelo prisma hexagonal, o marco zero da Praça da Sé na capital paulista.
Os moradores de São Paulo colonial, antepassados dos bandeirantes, também tinham origens espanholas e indígenas da região de Piratininga, entre eles os carrascos do Itatim, Ascenso Quadros, cujo pai atuava na Câmara de Vereadores de São Paulo, além de Raposo Tavares, André Fernandes e mais tarde, Pascoal Moreira Cabral.
O padre Altamirano, que atuava nas missões do Itatim, solicitou das autoridades espanholas o fornecimento de quinhentos mosquetes para que pudesse armar 250 índios para a defesa de Xerez. Somente assim, acreditava o padre, conseguiria defender as reduções do norte do Paraguai dos maloqueros de Xerez. O pedido nunca foi atendido, pois os espanhóis de Assunção preferiam perder territórios para os portugueses de Santana de Parnaíba do que armar os índios, ameaçando assim sua fonte de renda, as encomiendas. Era comum as acusações destes colonos contra os jesuítas de serem traficantes de armas de Buenos Aires para os índios das missões.
Quarenta anos separam a ocupação portuguesa de Xerez e o início da exploração do ouro em Cuiabá. A livre circulação dos portugueses pelo Paraguai também ameaçava o avanço jesuíta para a região de Chiquitos a partir de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A ocupação de fato pelos maloqueiros, destruição do Guairá (1628), Missões do Itatim (1647), ocupação da segunda Santiago de Xerez (1678) e fundação de Cuiabá (1719) foram grandes argumentos para garantir a posse de fato destes territórios com o Tratado de Madri (1750).
Os Guarani-Itatim, não escravizados em São Paulo pelos bandeirantes, acompanharam os jesuítas para Assunção e, mais tarde, para a Mesopotâmia argentina. Outros se refugiaram nas matas da serra de Maracajú, de onde assistiram à expansão dos Mbayá-Guaikurú e dos Guaná sobre os seus antigos territórios.
Os Guarani ainda são a população indígena mais numerosa em Mato Grosso do Sul, onde as parcialidades Ñandeva e Kaiowá somam quase trinta mil pessoas. Entre os acordos e negócios dos portugueses e espanhóis nesta região, os moradores originários foram os primeiros sacrificados e seus descendentes seguem atacados até hoje.
REFERÊNCIAS E FONTES:
CORTESÃO, J. Jesuítas e Bandeirantes no Itatim. Rio de Janeiro, 1952
GUZMÁN, R. D. Anales del Descubrimiento, Población y Conquista del Río de la Plata. Asunción, 1980.
MONTEIRO, J. M. Os Guarani e a história do Brasil meridional. São Paulo, 1992.
IMAGENS:
Rizzoli, Denis. Marco Zero de São Paulo. São Paulo, 2009.
Tags: Cuiabá, Escravização, Indígena
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