O corpo não pode ser separado da mente como pregou a filosofia moderna, muito menos a mente está confinada nos limites do corpo, muito embora lhe seja imanente. Os indígenas falantes da língua guarani têm epistemologias complexas distintas que fundamentam seus conhecimentos médicos.

A doença (mba’asy) está relacionada ao aquecimento do corpo e do clima (áry haku) e a saúde ao frescor (mboro’y) de ambos, explicou o líder espiritual kaiowá Atanásio Teixeira. Dentro desta concepção, o mundo também está doente, pois está cada vez mais quente e isto prejudica os seres humanos, plantas e animais.

O adoecimento da natureza pode ser combatido com o aryrovái, uma reza (nhembo’e) contra os males, esclarece o líder espiritual Getúlio Juca Kaiowá (nhanderu). Trata-se de um tipo de remédio muito potente, normalmente, ao qual se recorre para fazer frente ao que não tem remédio e que pode ser executado apenas por xamãs muito experientes. Não se trata de uma cura operada pelo nhanderu, mas por ser espiritual, um antepassado que mora em outros patamares celestes em determinadas direções (arayike). Este ritual demora vários dias, entre 5 e 6 ao todo, sendo realizado para doenças físicas, psicológicas, das pessoas e da natureza.

O aquecimento está ligado aos poderes (objetos e vestes) que o sol, kwarahy, o irmão mais velho (ke’yrusu) e primogênito de Nhanderu, possui e que lhe foram dados pelos seus antepassados (ypy), quando o Sol e seu irmão, a Lua, foram escolhidos para iluminar o dia, a noite e toda a criação, em substituição ao antigo luzeiro, Xiru Arakurá.

O equilíbrio da temperatura do dia, da noite e das estações do ano dependem da prática ritual dos nhanderu e nhandesy, os líderes espirituais. Assim, se estes rituais não são mais praticados, sobrevêm cataclismas (marány), as pessoas adoecem com o desequilíbrio ambiental e a vida torna-se insuportável.

Os meses de agosto, setembro e início de outubro, em nosso calendário são particularmente sensíveis, pois há um tipo de fumaça prejudicial (aratatinã) que adoece as crianças e os demais seres vivos sem os devidos cuidados rituais dos líderes religiosos para lhe fazer frente (aryrovái). Depois deste período, quando os guardiões se manifestam mediante seus trovões (ryapu guasúa), graves consequências podem advir sobre a humanidade se tudo não estiver ajustado pelos nhanderu e nhandesy, os especialistas guarani e kaiowá.

De acordo com a explicação do mestre tradicional kaiowá Getúlio Juca, após a identificação da direção de origem do mal, é pedido pelo nhanderu, que o respectivo jára deste lugar (arayke) envie seu auxiliar (yvyra’ija) para realizar a cura.

Um destes rituais kaiowá para fazer frente ao calor do Sol chama-se Kwarahy Aryrovái, pois estas rezas e cantos invocam os ventos sadios que refrescam e trazem a boa saúde, equilibram as coisas e esfriam os males que adoecem a humanidade.

Nhande Ramõi Aryrovái é o nome atribuído dos anciãos que sabem e praticam o aryrovái.

 

REFERÊNCIAS E FONTES:

TEIXEIRA, Atanásio. Aryrovái. Dourados, 2019.

JUCA, Getulio. Aryrovái. Dourados, 2019.

 

NOTAS:

  1. Pesquisa e organização: Neimar Machado de Sousa, doutor em história da educação pela UFSCar e pesquisador na FAIND/UFGD. Karai Nhanderovaigua. E-mail: neimar.machado.sousa@gmail.com
  2. O artigo tem finalidade educacional e formato adaptado às mídias sociais.
  3. A grafia adotada para as palavras tupi e guarani seguem a forma das fontes consultadas, acrescidas de acentuação para facilitar a pronúncia.
  4. Metadados: Aryrovái, aratatinã, Kwarahy, ke’yrusu, mboro’y.
  5. IMAGEM:
  6. IMAGEM: PEDRO, Marildo da Silva; JORGE, Misael Concianza. Gwyra Hoho’õ. Dourados, MS, 2019 (ilustração. Aldeia Panambizinho). ALMEIDA, Heliodoro Kaiowá (grafismo da borda. Aldeia Te'ýikue). 

 

Tags: Aryrovái, Kwarahy, aratatinã, ke’yrusu, mboro’y.

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